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Chute no balde do Tempo


A experiência do Tempo através da música, creio, é a mais instigante de todas. Isso porque na música você pode senti-lo mais claramente, vê-lo quase nu, e mesmo concentrar-se majoritariamente nele, livrando-se de uma escuta academicamente correta e adestrada. Isto é, você pode deixar de lado a forma, a harmonia e referê
ncias quaisquer (que hoje, orgulhosamente pós-modernos, chamamos “intertextos”), esquecer-se mesmo do gosto e do prazer estético, e quem sabe conceber uma maneira de ver o Tempo se mexer.

Dizem que há muitos tempos. Para todos os efeitos, aquele tempo cronológico, que sem embargo nos ocupa constantemente, é o que menos interessa. Por que? Ora, porque esse tempo é o único que já está esgotado, absolutamente previsível e esquadrinhado em segundos, minutos, etc. Esse tempo é o único que existe por consenso, convencional.

Mas, já que insistimos em encaixar nossa existência nessas balizas, suponhamos que sobre o tempo cronológico experimentemos a superposição de outros tempos, de maneira que um segundo possa durar muito mais que outro, ou onde possa acelerar, estacionar ou inclusive retroceder. Esse é exatamente o domínio da música. Digamos que se podemos pressentir timidamente tais superposições temporais em outras atividades humanas, é na música que o troço se expõe visceralmente para quem quiser ouvir (ver e pensar).

Acima me referi à possibilidade descartar os elementos delineados pela teoria musical (forma, harmonia, referências) em prol de uma concepção do Tempo. Pois bem, é necessário refrasear isso e dizer que tais elementos se misturam na nossa experiência temporal com a música, pois conformam a própria base física de sua existência. Entretanto, meu argumento aqui é que o Tempo não é um conhecimento a ser reconstituído através da experiência musical, ou seja, não existe palpável por detrás de elementos sonoros que, se devidamente decodificados, o revelam e assim premiam o esforço de nossa erudição. Não: quero dizer que o Tempo é simplesmente uma ilusão necessária, uma invenção que vamos refazendo constantemente conforme buscamos compreender a música. Nós fazemos o Tempo e o colocamos sobre aquilo que experimentamos, e portanto a extensão de nossos segundos recai essencialmente sobre nossa maneira de conceber a vida.

Claro está que há música onde o Tempo é irrelevante. Se fizermos uma música onde prevalecem convenções comerciais da indústria cultural, onde o compasso é constante, as velocidades são constantes ou mecanicamente proporcionais, o tempo (aqui no sentido técnico do termo) é constante, a forma e a harmonia são redundantes, a textura e as intensidades são literalmente comprimidas e respondem à intenção de satisfazer aos padrões estilísticos e tecnológicos cuja vigência mais pressentimos do que compreendemos, bem, daí vai ser difícil conceber um Tempo distinto sobre a música. Isso porque o Tempo nasce precisamente nos desvios, nos buracos entre aquilo que existe, que é som, e aquilo que é meramente sugerido pela música como se existisse ao redor dela, que dispara nossa capacidade criativa, sendo portanto em grande parte ideia.

São, assim, duas as características mais impressionantes do Tempo. A primeira é a sua artificialidade, ou seja, por mais que nos pareça que o percebemos como algo existente, na verdade o estamos inventando. A segunda, mais específica da atividade musical e um pouco decorrente da primeira, é que o Tempo não é estrutural, imbricado com o som e passível de ser descoberto. Ele é, portanto, superficial, e pode nascer (ou “ser nascido”) em qualquer desvio que nos sugira a sua existência, a partir do qual o Tempo assume um percurso paralelo à música num sentido estrito, quem sabe compondo com ela uma Música num sentido amplo.

A Teoria da música, quando trabalha com partituras, busca sempre olhá-las em profundidade. Quem sabe se não há um novo mundo a ser descoberto em sua superfície?

Bruno Angelo
Escrito em janeiro 8, 2013

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